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Respeito às diversidades

A família é a base dos valores de um ser humano. Mas e quando essa base não é a tradicional? O que pode acontecer? Independetemente das escolhas, casais homoafetivos mostram que o amor sempre prevalece

Em 25/06/2012 Por Iracy Paulina

Uma certeza em particular, entre tantas outras afinidades, uniu as empresárias Munira Khalil, 31 anos, e Adriana Tito, 29. “Queríamos formar uma família com filhos”, conta Munira. Ok, à primeira vista, trata-se de um desejo comum à maioria das mulheres. Mas, no caso delas, ele veio acompanhado de uma diferença fundamental: homossexuais, as duas vivem em união estável e resolveram recorrer à reprodução assistida, com sêmen de doador anônimo, para concretizar o sonho da maternidade.

“Procuramos uma clínica especializada nesse procedimento e o que mais me marcou é que fomos tratadas como um casal normal, independentemente de sermos duas mulheres”, conta Munira. Nos exames preliminares, veio uma surpresa: Adriana era infértil. “Seu maior sonho era sentir uma vidinha frágil crescendo dentro da barriga, protegida e alimentada por ela, e a notícia da infertilidade a deixou muito abalada”, conta Munira. Então, o médico sugeriu a fertilização in vitro dos óvulos de Munira e a implantação do embrião no útero de Adriana. “Adoramos. Com esse procedimento, nós duas podíamos ter participação biológica na geração de nossos filhos”, afirma Munira. Assim nasceram os gêmeos Eduardo e Ana Luiza, hoje com 3 anos de idade. E uma situação incomum: crianças com uma mãe biológica e uma mãe gestacional. Como lidar com isso?

O primeiro entrave foi a questão do registro civil dos bebês. Tiveram que registrá-los primeiramente no nome de Adriana e, depois, recorrerem à Justiça. Para isso, tiveram que solicitar uma autorização para que o registro das crianças fosse refeito para constar nele o nome das duas mães. “Foi uma espera muito sofrida. Tivemos cinco pedidos de antecipação de tutela negados. Cheguei a duvidar da Justiça brasileira”, diz Munira. “Nunca fomos ouvidas, não nos conheciam, não sabiam de nossas necessidades, não viram nossos filhos e ainda negavam a existência e legitimidade de nossa família?”

As duas resolveram fazer barulho, divulgar o caso, mostrar que, além delas, existiam muitos outros casais homoafetivos na mesma condição, procurando legitimar uma família que já existia de fato. Finalmente, em janeiro de 2011, Munira e Adriana conseguiram o que tanto queriam. “Nossa advogada ligou dizendo que o juiz tinha reconhecido nossa união e os filhos como sendo das duas”, diz Munira. “Foi a primeira vez que a Justiça reconheceu a dupla maternidade”, afirma a advogada gaúcha Maria Berenice Dias, especializada na defesa de direitos homoafetivos. Agora, Munira e Adriana só pensam em curtir os dois rebentos. “Dividimos as tarefas, as broncas, as brincadeiras, tudo. Fica bem mais gostoso e não pesa para ninguém”, conclui Munira.

Pai de coração

Tudo isso Jota*, 43 anos, que mantém um relacionamento estável há dez com seu companheiro, tem algo para compartilhar. “Sempre alimentei a vontade de ser pai. Descobri que podia tornar esse sonho possível quando fiquei sabendo que a filha de um casal de amigos era adotada. Essa descoberta foi um divisor de águas na minha vida em termos de visão sobre a adoção e por isso optamos por este meio para sermos pais”, conta Jota. Ele e o companheiro são pais de dois filhos adotivos, um menino de 9 anos e uma menina de 3.

“Tão emocionantes quanto a chegada de nossos filhos foram os dias que as sentenças das adoções saíram e nós fomos pegar as certidões de nascimento constando nossos nomes como pais e nossos sobrenomes fazendo parte dos nomes deles”, afirma Jota. Na escola, por enquanto, Jota acredita que seus filhos não sofrem discriminação justamente porque seus colegas, também crianças, ainda não têm preconceitos, apenas curiosidade. Contudo, ele está ciente de que poderá passar por algumas saias justas, agora que seu mais velho está entrando na pré-adolescência.

“É nessa idade que as crianças começam a absorver o preconceito dos pais e da sociedade. Creio que o preconceito esteja cada vez menor, mas devemos estar preparados para ele”, diz Jota. Até aqui, ele diz que nunca tiveram problemas em relação à sua configuração familiar diferente. “A escola que nossos filhos estudam é muito boa e trabalha com o conceito de respeito às diversidades. Semana passada foi aniversário de nosso filho e convidamos os amigos da escola e seus pais para a festa, a grande maioria esteve presente. Temos amizades com muitos pais dos amigos de nossos filhos e saímos muitas vezes juntos, formando um ciclo de amizade de muito respeito”, relata.

Preconceito latente

A luta de Munira e Adriana é emblemática. Embora os homossexuais estejam, aos poucos, conquistando o reconhecimento de seus direitos, como a união estável, ainda têm que lidar com temas que levantam polêmica, como filhos. “Mesmo nos países que aprovam o casamento gay, há resistência a essa questão, baseada no preconceito, na desinformação e na absurda indignação moral contra os homossexuais”, afirma o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia. “Mães e pais homossexuais são tão carinhosos e capazes de educar uma criança quanto um casal hetero”, diz ele.

Fala-se que filhos de homossexuais também se tornariam homossexuais, mas não há indícios de que isso pode ser verdade. E se fosse, qual seria o problema em ter um filho com essa orientação sexual? Segundo a psicóloga especializada em família Ceneide Cerveny, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), embora a configuração familiar tenha mudado muito nas últimas décadas, a sociedade ainda tem como referência aquele padrão transmitido nos anúncios da mídia reunindo pai, mãe, filhos e avós. “Nesse terreno, as coisas mudam muito lentamente. Até bem pouco tempo, os homens que têm a guarda dos filhos se sentiam deslocados em reuniões na escola povoadas por mães. Hoje isso já está se tornando mais comum e acho que o mesmo vai acontecer com as uniões homossexuais”, diz ela.

Mas será que esse preconceito latente pode gerar algum conflito na cabeça do filho? “É possível que ele sofra algum estresse, o que pode ser contornado pelo acolhimento amoroso e atento dos pais. Uma criança precisa de segurança, amor, carinho, regras e rituais, entre outras coisas, para crescer saudável, independentemente de quem supre isso, seja casal homo, hetero, mãe sozinha ou avós”, conclui a psicóloga.

Filhos, tô fora!

Nem todos os casais homossexuais almejam uma família com filhos. “Tem aqueles que não querem abrir mão de seu estilo de vida. Ao assumirem essa condição, já sabiam que sua família não seria tradicional, aceitaram e se acostumaram com a ideia de não ter filhos”, afirma o antropólogo Luiz Mott. Paula e Amanda*, juntas há quatro anos, não pensam na maternidade. Ambas sentiram preconceito da sociedade quando se assumiram homossexuais e não acham justo fazer a criança passar por isso também. “Eu escolhi enfrentar o preconceito, ela não, imporíamos isso à ela. E só quem sofreu muito com a discriminação é que sabe o quanto isso pode ser prejudicial para a saúde mental e emocional, principalmente quando se trata de uma criança”, explica Amanda*.

Presente da vida

Presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis e o companheiro também seguiram o caminho da adoção para completar a família. E diz que a emoção de receber da vida esse enorme presente é inesquecível. “Conheci nosso filho em um abrigo no qual fazia trabalho voluntário e nossa afinidade foi se formando desde então. Cheguei a ficar dois fins de semana com ele antes de ter a guarda provisória. No segundo fim de semana, recebi a ligação do meu advogado informando que a guarda provisória havia sido deferida e ele ficaria permanentemente conosco.

Foi um momento maravilhoso e inesquecível em nossas vidas. Após avisar meu companheiro, começou o corre-corre para comprar tudo que era necessário. Foi um parto surpresa!”, recorda-se. A paternidade, esclarece ele, não é uma decisão fácil. “Uma criança muda tudo, exige da gente uma atenção enorme. Na verdade, exige que a gente viva para ela, em dedicação integral. Você tem de reestruturar a vida, mas é legal chegar em casa, receber o sorriso da criança, preocupar-se com as notas, ser chamado de pai”, derrete-se Toni, que já está planejando aumentar a família com a adoção de uma menina. “E  acho que desta vez não vai demorar tanto tempo”.

No caso do primeiro filho, a espera foi longa. É importante ressaltar que a adoção, tanto por casais hetero quanto por homossexuais, deve seguir os trâmites legais que, apesar de demorados e burocráticos, acabam sendo de imensa relevância para o futuro da criança. “Eu e meu companheiro levamos sete anos seguindo todos os trâmites legais. Mas acredito que esse processo é necessário porque não estamos brincando. Trata-se da vida de uma pessoa, que deverá ser colocada em um lar onde poderá ter educação, respeito, atenção, dedicação”, pondera Toni.

No círculo social, Toni afirma que seu filho nunca teve grandes problemas. O maior, até agora, aconteceu na escola: uma garota chamou o menino de doente, por ele ser flamenguista, negro, filho de dois pais e, segundo o próprio Toni, “muito autêntico”. A questão foi resolvida na escola, em uma conversa com a diretora, e hoje a menina não mais incomoda – e também não o aceita, o que Toni acha natural. Faz parte do processo de mudança. Para a psicóloga Ceneide Cerverny, temos que confiar no futuro. “Vai chegar o dia em que as pessoas vão reconhecer o diferente apenas como diferente e não como deficiente”. As famílias homoafetivas estão ajudando a construir essa história.

Ilustrações: Luda Lima |*Nome trocado para preservar a identidade dos personagens.

 

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